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Salgueiro: uma escola diferente, uma escola revolucionária.


Imagem: Reprodução da Internet

Sempre nos preparatórios para o Carnaval torcemos para que, talvez, aconteçam enredos afro como, Beija-Flor 2007, Grande Rio 2019, entre outros desfiles do tema. Até aí tudo normal.

Representar a negritude na maior festa do planeta é algo muito importante, mas aqui no Rio de Janeiro, berço do samba, tem uma escola que está tão acostumada a falar da negritude que é muito difícil de errar em seus enredos.


Nem melhor, nem pior, a Acadêmicos do Salgueiro pede passagem em nossa segunda coluna.

Foto: Reprodução / Desfile do Acadêmicos do Salgueiro de 1955

Fundada em 1953, após fusão da Depois Eu Digo com a Azul e Branco, a escola nove vezes campeã do Carnaval teria um papel muito importante para nossa festa. O pioneirismo e as inovações foram marcas fincadas pela escola tijucana entre 1950 e 1970. O Salgueiro foi a primeira escola a convidar artistas plásticos, de formação para confeccionar seus desfiles. Em 1959, o casal de artistas plásticos, Dirceu e Marie Louise Nery, se juntaram a academia do samba para confeccionar seu Carnaval. Em 1960, o professor da Escola de Belas Artes e cenógrafo do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Fernando Pamplona, juntou-se à escola. O Salgueiro elevava o nível do Carnaval, trazia ainda Arlindo Rodrigues, que depois chamaria para junto dele, Joãosinho Trinta, também viria Lícia Lacerda, Maria Augusta, Rosa Magalhães, além de Renato Lage, claro. Ser salgueirense na década de 60, era como torcer pra uma seleção carnavalesca. Na mesma época, a escola da Tijuca inovou trazendo enredos brasileiros, quando até então, os desfiles de carnaval eram “capas e espadas” (nas palavras de Milton Cunha, tá amado?). Enredos como: Zumbi dos Palmares (1960), Chica da Silva (1963, inclusive sendo este o primeiro a tratar de uma personalidade feminina), Chico Rei (1964) e Dona Beija (1968), ficaram na história. Depois de ter ganhado três campeonatos em 60, 63 e 65, os mais supersticiosos ficaram com receio daquele enredo que traria o quarto título para a Academia em 1969. “Bahia de Todos os Deuses” preocupou aos moradores da comunidade, pois segundo os mesmos, falar sobre a Bahia dava azar. As superstições caem. Sendo a oitava a desfilar no dia 16 de fevereiro de 69, a escola se sagra campeã pela quarta vez em sua história. Uma curiosidade sobre o desfile: Os carnavalescos Arlindo Rodrigues e Fernando Pamplona foram contratados para decorar o salão do Copacabana Palace para o baile de carnaval, fizeram tudo em vermelho e branco. Com o baile sendo no sábado, eles reaproveitaram muitas decorações do baile em alegorias no desfile de domingo. Foi a primeira vez que uma escola abordou a religião através do sincretismo, associando os orixás e santos católicos nos terreiros de candomblé da Bahia, resultando em um reforço à ancestralidade africana, que se tornara marca da escola até os dias de hoje.

Foto: Reprodução / Desfile do Acadêmicos do Salgueiro de 1971

A escola voltaria a vencer em 1971, com o clássico “Festa para um Rei Negro”, inclusive, o samba-enredo que revolucionou o carnaval. Um novo formato surgiu para o mundo do samba, após o compositor Zuzuca ter quebrado a cabeça e trazer por sua caneta a um papel de pão o refrão “Ô-lê-lê/ Ô-lá-lá/ Pega no Ganzê/ Pega no Ganzá” que se tornou conhecido em todo o mundo. Curiosidade: A torcida do Barcelona tem sua versão deste samba para as arquibancadas. O Salgueiro é globalizado, minha gente. Voltando… Aclamado do início ao fim, o samba não foi o único destaque salgueirense. Joãosinho Trinta utilizou pela primeira vez na história o isopor para criar colares e adereços africanos. As fantasias vieram com estampas de zebras e símbolos afros, que encantaram o público e os jurados, resultando em mais um título. Os anos de 74 e 75 marcaram uma nova mudança na escolha dos enredos. Joãosinho Trinta conquista mais dois títulos com enredos oníricos, misturando realidade com imaginação. Este seria o último título da era revolucionária da academia, que continuaria fazendo carnavais inesquecíveis, com sambas da melhor qualidade nos anos 80, como “Skindô Skindô” (1984), porém não venceria nenhum campeonato na década.

Anos 90 – Hoje.

Foto: Reprodução / Desfile do Acadêmicos do Salgueiro de 1993

Contagiando e sacudindo o Brasil de norte a sul, o Salgueiro vem para o carnaval de 93 com o enredo “Peguei um Ita no Norte”, e sua safra era algo de impressionar. O “Explode Coração” que conhecemos hoje em dia, não era o favorito a vencer a disputa, o favorito era o samba de Sereno, Diogo, Baster e Cia, que dizia: “Me faz um dengo meu xodó, eu sou Salgueiro, nem melhor e nem pior”. (Samba este que Emerson Dias já cantou brevemente no “Samba Acústico dos Carnavarizados”, no YouTube, vale a pena conferir.) Voltando… O samba campeão, composto por Demá Chagas, Arizão, Bala, Guaracy e Celso Trindade, virou sucesso e estourou no Brasil inteiro. Um refrão contagiante que pegou até mesmo aqueles fanáticos por outras escolas. O resultado não poderia ser outro, o Salgueiro sacudiu a Sapucaí da concentração à dispersão. Era lindo ver a coreografia do público e aquele canto uníssono. Não dava pra saber se estava em um desfile de escola de samba, ou no Maracanã, por tamanha cantoria. O Salgueiro chegara ao seu oitavo título, merecidamente. Curiosidade: Neguinho da Beija-Flor chegou a declarar em entrevista ao programa “Samba na Gamboa” que ao ver o início de desfile da escola tijucana, chamou sua mulher e disse “Ali está a campeã”. Ainda nas palavras de Neguinho “Se eu pudesse, ali eu não saía mais de casa”, brincou o intérprete. Este samba abriu ainda mais as portas do mundo do Carnaval para Quinho, que havia chegado na academia em 1991. O intérprete havia cantado pela primeira vez na Avenida pela União da Ilha. em 1988, no enredo “Aquarylha do Brasil”. Mas foi em 89, com o enredo “Festa Profana”, que se destacou, ficando na escola insulana até 1990. O Salgueiro depois de 93 conquistaria um vice-campeonato em 1994 e uma sequência de “quintos” e “sétimos” lugares, inclusive no carnaval de 2003 onde cantou seus 50 anos de história, ano esse, que marca a volta de Renato Lage para a academia e a estreia de Márcia Lage.

Foto: Reprodução / Desfile do Acadêmicos do Salgueiro 2009

A história começaria a mudar em 2008, quando conquista seu primeiro vice-campeonato depois de 14 anos e reencontra o caminho do sucesso no Carnaval carioca. Em 2009, Renato Lage assina sozinho o enredo “Tambor”, já que sua esposa Márcia Lage, assinaria naquele ano o Carnaval do Império Serrano. Sendo a segunda escola a se apresentar na segunda noite de desfiles, o Salgueiro veio vibrante, impactante e eu que naquela altura tinha 10 para 11 anos de idade, não consigo me esquecer de nenhum detalhe daquele primeiro carro: o tambor, os integrantes nos elásticos, era tudo muito chamativo. Era o Salgueiro! Consegue sentir o peso no nome? Repita comigo e perceba: SAL-GUEI-RO! Este desfile certamente tem muita influência sobre eu gostar de carnaval… e que atuação de Quinho. Quinho que viria a ser conhecido no futuro como Quinho do Salgueiro, depois de cantar “Explode Coração”, “Candaces” e “Tambor”, sendo dois desses títulos, e o outro um resultado cujo qual o Salgueiro foi claramente prejudicado pelos jurados, é justo ter a honra de carregar a academia no nome. Depois de 2009 o Salgueiro voltou a fazer grandes carnavais. Contou em 2011 a história do Rio no cinema e era uma das favoritas ao título, que não veio por um pecado do destino que fez com que a escola abrisse um buraco e estourasse o tempo, mesmo assim, foi tudo tão lindo que conseguiu ainda a quinta colocação.

Foto: Marco Antônio Cavalcanti / Desfile do Acadêmicos do Salgueiro de 2014

De lá pra cá, foram três vices: 2012, 2014 e 2015, e carnavais inesquecíveis. A academia cantou a “Opera dos Malandros”, ressaltou a importância da mulher negra desde a África até o Brasil atual em “Senhoras do Ventre do Mundo”, e nos colocou um sorriso no rosto ao apresentar “A Divina Comédia do Carnaval”, e a história do “Rei Negro do Picadeiro”.

Foto: Marco Sierra Lima

Ser salgueirense é ser irreverente, é ser consciente da história de seu povo, é saber que no melhor e no pior momento, você terá um irmão contigo, um braço amigo. Ser salgueirense é ser aquele que nunca perde a fé, que canta “Olori Xango” até perder a voz.


Enfim… pode-se dizer que Salgueiro e Rio de Janeiro andam lado a lado, uma sintonia perfeita.

Nem melhor, nem pior, mas aquilo que nos faz amar o Salgueiro e o Rio, é que são uma escola e um lugar diferente.

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