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Confira a sinopse do enredo da União da Ilha para o Carnaval 2024


PRELÚDIO

Inspirado livremente no livro “Amoras”, do rapper Emicida, e em demais contos infantis do universo da Literatura Negra brasileira, a União da Ilha do Governador, em 2024, propõe uma viagem fantástica pelo olhar puro da infância com o enredo “Doum e Amora: crianças para transformar o mundo!”.


Afinal, o mundo é bem mais belo quando visto pela verdade do coração das crianças, que têm muito a nos ensinar. Doum e Amora, juntos em meio a doces e brincadeiras, percebem que a humanidade perdeu a inocência e o dom de enxergar a vida em tons mais coloridos. Resolvem ensinar inúmeras lições aos que se consideram sábios, dentre elas a tolerância e o amor ao próximo. Baseados em uma educação antirracista, apontam para uma realidade multicolorida em que o arco-íris não tem somente as sete cores que costumamos ver.


A atmosfera com aromas únicos que caracterizam a infância convida todas e todos a reaprender o bem querer e muito sobre a luta contra o racismo estruturado na nossa sociedade, que ainda acomete o crescer das crianças, que têm a força de transformar a partir do meio em que estão inseridas. Lembrando que a felicidade precisa ser regada e cuidada tal qual um pé de amora que balança com a ventania numa tarde ensolarada num desses quintais do Brasil.

Doum e Amora são alegorias para todos os meninos e meninas negras desse país. A União da Ilha entra na luta antirracista e contra a intolerância religiosa e lhe faz um convite para brincarmos de ser feliz!


SINOPSE


“Amoras penduradas a brilhar,

Quanto mais escuras,

Mais doces,

Pode acreditar!”

(Emicida)


Era uma vez um céu de vida, o Orun dos mistérios do Axé, onde meninas e meninos brincam felizes! Um mundo onde os Ibejis meninos gêmeos faziam travessuras, até que veio à luz um terceiro, a combinação da vida e da felicidade dos dois primeiros!


Doum, o menino que vira e desvira emoção, veio pra ensinar o beijo estalado do amor de todas as mães e o abraço apertado para acalmar os irmãos que sentem a dor da exclusão! Doum, que vive a sabedoria de se divertir com a fé e a sorte, ensina que, brincando, se é mais forte:


– “Pode olhar, lá tudo é puro e profundo que nem Obatalá, o orixá que criou o mundo!”.


Sabendo então que no Aiyê meninas e meninos pretos vivem o tormento da maldade e do preconceito, Doum sempre por aqui está, em todos os terreiros e altares, ensinando o respeito!


De repente, entre brincadeiras enquanto apagava medos com guaraná e plantava nuvens de algodão-doce, ouviu uma cantiga e sorriu, pois sabia que o encantamento estava prestes a acontecer!


Amora é uma menina linda que exala e vive alegria! Seu pai, sabendo dos puros sentimentos, lhe cobre de abraços no portão de casa, contando que com a fé e a força dos antepassados, tudo se pode alcançar.


A menina gira-gira, pula corda e pique-pega, distribuindo receitas de afeto pra mostrar a Mãe-África, os ancestrais e a força infinita do carrossel do Axé das crianças pretas que derrubam branquitudes com os cachinhos de seus cabelos!


Sentada no meio-fio com sua abayomi, brinca e sorri. Sorri a beleza das amoras da mesma cor pretinha que ela! Sorri a negra terra onde seu umbigo está enterrado desde antes que nasceu! Sorri aquelas savanas ali do lado, onde seu umbigo foi plantado por mamãe Iemanjá, tão enorme e feita d’água que num só passo chegou nas Áfricas da sua alma! Amora, levada da breca, sorri o brilho dos rios e das asas de borboletas azuis, vermelhas e brancas, sabendo que o mundo inteiro cabe dentro da sua boneca!


A princesinha preta canta palavras de criança sabida feita na ancestralidade e nas cantigas do terreiro de Tia Ciata. Canta pra encontrar o seu amiguinho, de quem sente tanta saudade:


“– Cosme e Damião,

Ô Damião, cadê Doum?

Doum tá passeando é no cavalo de Ogum!”


Amora sente a presença espiritual do menino! Ele é a cura do mundo, a criança médica das almas, aquele que faz cambalhotas com ela para espalhar a verdade da transformação!

E lá vem Doum, das beiradas da noite estrelada, montado num cavalo-marinho que brilha como os olhos de jabuticaba da menina, para encontrá-la!


Doum transforma seu cavalo-marinho em carrinho de rolimã com rodas de pirulito, põe Amora em cima e saem juntos para entregar ternuras pretas pelas favelas!


A alegria se espalha como coloridos doces de setembro! Doum e Amora, o Encantado e aquela que tem amor no nome, levam doçuras de força e resistência para que a vida amadureça sem discriminação pela pureza do olhar de todas as crianças negras, suas irmãs e seus irmãos!


Amora aprendeu com Doum que a água do mar do seu coração derramará verdades pra gente adulta! Aprendeu que com a sabedoria do amor das meninas pretas feitas de sonhos existirá igualdade, aquela que toda criança, como ela mesma, almeja e sabe. Amora aprendeu a derrubar preconceitos usando a sábia inocência dos seus olhos, que brilham a cor da sua pele, memória e herança de um continente inteiro!


Espalhando pretitudes nas cirandas de luta contra o racismo por toda parte, Doum e Amora brincam pra salpicar a vida com dignidade. Brincam a alegria dos Erês! Amora sorri e sabe que o mundo é lugar pra ser feliz. Doum ensina o encanto da vida de quem veio antes dela, daqueles que lhe deram a alma desde as Áfricas que cuidam do umbigo da princesinha naquela terra!


Doum e Amora querem transformar o Aiyê com sorrisos e os “mil tons” do arco-íris! A força de Amora é a alegria dos seus olhos de jabuticaba e a verdade de que ser criança é esperançar no lutar! Amora e Doum querem mostrar o quanto é importante brincar com bonecas pretas, pintar noites com lindos cabelos crespos, soprar igualdades como flores de agapanto e buscar a União pelo respeito!


Amora e Doum querem nos transformar num mundo sem lobos-maus, sem dor, nem palmada! Um mundo com coroa black power, raios de sol trançados da memória de rainhas e reis negros – Dandara e Zumbi, pra sempre presentes! Um mundo sem privilégios de branquitude, mas de pretos no topo, mostrando que a pureza do afeto da infância é uma sábia lição contra o preconceito que veste o povo!


Juntos, enfim, plantam um baobá pelas ruas, consciências e escolas! Lendo Lucinda, Conceição, Maria de Jesus e a dos Reis ao som de Pérolas Negras, semeiam um montão de livros de conhecimento pra distribuir sabedoria e ensinamentos, e pra lembrar sempre o dever de enraizarmos a luta antirracista!


Lançam pelo mundo sementes de Ubuntu e Marielles para saravá o amor dos Pretos Velhos e Ibejis! Pedem a benção e proteção a Mãe Menininha e mostram que a igualdade vem dos tambores e atabaques das aldeias dos antepassados, que criaram as crianças para serem fortes e gigantes contra qualquer branca maldade!


Já quase na hora de voltar, Doum desvira numa cambalhota e vai embora. Monta seu cavalo-marinho e parte pro Orun numa estrada cheia de balas e cocadas rosas! Beija a face de Amora, deixando-a com sua abayomi! Amora sorri enfim a doçura mais simples da verdade que há e cantarola:


“Deus abençoe as crianças,

As crianças do Brasil,

Pra que elas tragam ao mundo,

Um amor que jamais existiu!”.



Carnavalesco: Cahe Rodrigues

Enredistas: Victor Marques e Clark Mangabeira

Equipe Criativa: Cahe Rodrigues (@eucaherodrigues), Clark Mangabeira (@clarkmangabeira), Rayner Botelho (@raynerzito), Victor Marques (@euvictormarques).

Ilustrações: Orádia N.C Porciúncula



Créditos e referências:

1) As citações “Pode olhar, lá tudo é puro e profundo que nem Obatalá, o orixá que criou o mundo!”, “[…] amoras da mesma cor pretinha que ela!” e “olhos de jabuticaba”, bem como o nome “Amora”, são referências diretas retiradas do livro “Amoras” (2018, Cia. Das Letras), do rapper Emicida.

2) Agapanto é uma flor de origem africana, também conhecida como lírio-africano.

3) Abayomi é uma boneca de pano de origem iorubá.

4) O trecho “mil tons do arco-íris” é uma referência a Milton Nascimento e a seu álbum “Miltons”, de 1988.

5) O trecho “Lendo Lucinda, Conceição” é uma referência às escritoras Elisa Lucinda e Conceição Evaristo.

6) O trecho “Maria de Jesus e a dos Reis” é uma referência às escritoras Carolina Maria de Jesus e Maria Firmina dos Reis.

7) O trecho “ao som de Pérolas Negras” é uma referência a Jovelina Pérola Negra.

8) O trecho “Cosme e Damião […] Doum tá passeando é no cavalo de Ogum!” foi retirado diretamente de um Ponto de Umbanda, listado na internet, em homenagem aos Ibejis, Erês, e Cosme, Doum e Damião.

9) O trecho “Deus abençoe as crianças, […] Um amor que jamais existiu!” é uma citação direta da música “Deus abençoe as crianças”, de 1973, de Nelson Ned (Fonte: letras.mus.br/nelson-ned/1600526/), cantada como Ponto de Ibejada na Casa de Caridade Oxalá e Yemanjá, em Torres/RS (Fonte: pt.scribd.com/doc/7117277/Umbanda-Pontos-Letras-de-Pontos-de-Ibeijada-Casa-de-Caridade-Oxala-e-Yemanja).

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