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71 anos terrestres de um Anjo Negro:


Foto: Divulgação

Beleza, beleza! Hoje vamos voltar no tempo um pouquinho para contar a história de um jovem garoto, flamenguista, nascido em Nova Iguaçu.

Hoje é dia de falarmos de Neguinho da Vala. Quando novo, ainda morador do bairro Nova América, Neguinho desenvolveu uma paixão por música sem igual.

Via seu pai, trompetista de uma antiga orquestra, e queria aprender a tocar. Vontade essa que foi barrada com um "não" de sua mãe, pois trompete deixava

a marca do bocal nos lábios. Porém, Neguinho continuava seguindo no caminho do samba ouvindo Moreira da Silva, Jorge Veiga e etc. Resolveu ser compositor.

Talvez essa tenha sido a decisão mais importante que tomara até então.


Logo aos dez anos de idade, Neguinho foi participar de um concurso em um parque de diversão e o cara que iria cantar o samba dele não apareceu...

(não em condições de cantar).

O mesmo então pegou o microfone, cantou um samba de Jamelão e ganhou duas latas de goiabada.

Prêmio este, que "Os Carnavarizados" já o entregou, simbolicamente, em um show acústico lá no canal do YouTube. Vale conferir!)


Daí pra frente é só história. Ele se junta ao então bloco Leão de Nova Iguaçu já como intérprete.

Mas Neguinho queria mais: queria seu espaço garantido em meio aquela festa toda. Bateu na porta do Salgueiro (sua escola de juventude)

e a ala de compositores já estava cheia. Chegou a bater na porta da Portela e nada. Portela essa que por ironia do destino volta mais à frente.

Tentou Império Serrano e também nada, Mangueira também o rejeitou. Em meio à todos esses "toc-tocs", Neguinho já havia recebido o conselho para tentar a Beija,

porém não foi preciso ele ir, pois a Beija-Flor veio até ele. Toda essa vontade de fazer parte do Carnaval carioca foi percebida por Cabana, compositor importante dos

primórdios da agremiação nilopolitana.


Neguinho então, chega em 1975 à Beija-Flor de Nilópolis para compor ala de músicos. Logo em seu primeiro ano, vence o samba que iria para a avenida no ano seguinte.

Na hora de gravar "Sonhar com Rei da Leão", Neguinho solta um "Olha o Beija-Flor aí minha gente!" e questionado pelo técnico de som se aquilo ficaria na gravação,

respondeu que sim. O então primeiro grito de guerra da história, mesmo que sem querer, causou estranhamento e rebuliço nos bastidores. Hoje em dia,

todo intérprete - ou puxador - tem um.


Então vamos recapitular: nascido em família de músico, foi atrás de seus sonhos, batendo de porta em porta sempre escutando seu mestre jamelão agarrou a oportunidade

que a Beija-Flor lhe deu, escreveu o samba para o concurso, ganhou, gravou seu samba, sem querer criou o mais famoso dos gritos de guerra. Ufa! Poderia ficar melhor?

PODERIA!


Neguinho vai para a avenida e ganha o primeiro título para a Beija-Flor de Nilópolis, que veio falando sobre o jogo do bicho e exaltando sua

madrinha Portela, com um samba de sua composição.


A Beija com Laíla, Joãozinho Trinta e Neguinho é bi-campeã em 1977 com "Vovó e o Rei da Saturnália na Corte Egipciana".

Estão percebendo que as histórias agora começam a se entrelaçarem?


Em 1977, Neguinho compõe outro samba que se consagraria campeão na Beija-Flor para o

Carnaval de 1978. O famoso "Ierêrê" daria a escola nilopolitana o tricampeonato com o enredo: "A Criação do Mundo na Tradição Nagô". À partir daí, Neguinho da Vala

se torna Neguinho da Beija-Flor.


Atualmente não é exagero nenhum falar que Neguinho é uma das figuras mais importantes da história da agremiação, assim como do Carnaval. Neguinho cantou e encantou

com: "A Grande Constelação das Estrelas Negras", "O Mundo é uma Bola", "Ratos E Urubus... Larguem Minha Fantasia", "Todo Mundo Nasceu Nu" e muitos outros sambas,

incluindo seus grandes sucessos de meio de ano como "Negra Ângela", "Gamação Danada", "Malandro Também Chora" e "Vovó Filé".


No início da década de 2000, viveu grandes momentos em desfiles históricos como "Agotime", "Amazônia Terra Santa", "O Vento Corta a Terra dos Pampas".

Esses dois últimos protagonizaram o segundo tricampeonato da escola que começou em 2003, terminando em 2005.


Neguinho vivia uma das melhores décadas de sua vida, pois voltou a vencer em 2007 e 2008, mas nesse mesmo 2008, em junho, mês de seu aniversário, o intérprete sofre

um baque. Alarmado por um sangramento, foi levado por sua mulher ao médico onde se descobriu um tumor malígno no intestino, que já estava lá há pelo menos dois anos.

De 2008 para 2009 o cantor lutou. Tratamentos intensos e quimioterapia lhe drenavam ao todo. Nesse momento, não só a comunidade nilopolitana, como todas as outras

co-irmãs o apoiaram. Ao todo, o tratamento durou um ano e meio, ou seja, em 2009, no qual para mim é um dos episódios mais marcantes, ele cantou mais de uma hora e

vinte, após passar por um tratamento, e venceu o prêmio "Estandarte de Ouro", como melhor intérprete.

Não só cantou como casou em plena Marquês de Sapucaí. Afinal de contas, "No Chuveiro da Alegria, quem banha o corpo é Luiz Antônio na folia".


Foto: Divulgação/ODia

Maior vencedor de estandartes de ouro ao lado de seu irmão Nego e de seu mestre Jamelão, é exemplo de superação e tem como sua marca o seu sorriso.

Com ele superou todos os obstáculos e deixou para trás quem queria lhe ver mal. Só temos a agradecer você, Neguinho.

Obrigado por tudo que fez pelo Carnaval, como um todo, e pelo exemplo que gera para as novas gerações. Se alguém se espelha em você, pode ter certeza que o mesmo não

desistirá tão facilmente e será uma pessoa do bem.


Quanto ao título desta coluna, coloquei "anos terrestres", pois o senhor não é deste mundo. Parabéns mestre! Vida longa à Neguinho da Beja-Flor!



Mickael Justen em nome de todos os Carnavarizados desse planeta Carnaval.

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